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Ribon no Kishi e o Teatro de Takarazuka – Um mangá bem simpático com uma grande inspiração teatral

Para abrir, o piso da série no museu do Tezuka

Bom dia jovens leitores, como estão? Ficaram sabendo do Tezuka Day? Pois é, para surpresa de vocês a moexecelência vai participar falando sobre o shoujo RIBON NO KISHI! Agora com vocês, a Princesa e o Cavaleiro no Planeta do Moe.

Capa do volume 2, mostrando a personagem principal, Safari

Ribon no Kishi, ou A Princesa e o Cavaleiro, é um mangá revolucionário pois foi ele que criou o gênero shoujo, criando até mesmo muitos temas posteriores. O mangá teve 3 versões diferentes sendo o primeiro publicado de janeiro de 1953 a janeiro de 1956 na Shoujo Club, da editora Kondasha, que já não existe mais. A segunda versão foi publicada na revista Nakayoshi começando em janeiro de 1958 e terminando em junho de 1959, foi uma sequência que tinha como personagens principais os filhos gêmeos do casal da história anterior. A terceira versão, a qual falaremos aqui, foi publicada na Nakayoshi em um período de tempo maior que a versão original sendo de janeiro de 1963 a outubro de 1966, posteriormente essa versão foi publicada pela Editora JBC no Brasil. Esta é a versão mais próxima da versão animada feita pelo estúdio Mushi Productions, transmitido entre 2 de abril 1967 até 7 de abril de 1968, contando com 52 episódios, sendo exibido no Brasil em diversos canais, entre eles o Tupi e a Record. A série é um dos primeiros animes coloridos produzidos.

A história começa no Céu. Antes de descerem para a Terra as crianças recebem um coração, que para os meninos é azul e para as meninas rosa. Certa vez o anjinho Ching, em mais uma de suas travessuras, faz uma menina engolir o coração azul e graças a isso ela fica com dois corações. Deus manda o anjo descer a Terra para pegar de volta o coração de azul da menina e não permite que ele volte ao céu até que ele dê um fim à confusão que começou.

No Reino da Terra de Prata as leis determinam que os governantes sejam homens, por isso, quando nasce a princesa Safiri ela é anunciada por engano como um menino ao invés de uma menina e seus pais são obrigados a manter a farsa, já que na linha de sucessão existe o malvado Duque Duralumínio e seu filho, o príncipe Plástico. Com a ajuda de Nylon, o duque tenta descobrir a verdade sobre Safiri para poder retirá-la do trono e colocar o seu próprio filho lá. Quando completa quinze anos, em um baile de carnaval, Safiri conhece o príncipe Franz e se apaixona por ele. Daí em diante, muitos obstáculos surgem entre os dois personagens como Satã, Madame Inferno, uma bruxa que deseja o coração de menina para sua filha, a bruxinha Heckett, além de problemas no reino e das tentativas do Duque Duralumínio de provar que Safiri é de fato uma garota.

Inicialmente direi logo, me perdoem por dizer qualquer coisa que não agradem vocês, este é o primeiro review que faço sobre algo tão importante como é Tezuka, afinal até sem ele o moe não existiria. No final, compenso vocês com um super texto sobre o Teatro de Takarazuka.

Na verdade, essa é a minha cara se o pessoal vai gostar ou não

Bom, iniciarei esse review dizendo o seguinte: eu achei o mangá bem simpático. Mas o que diabos que você quer dizer com simpático? a ideia é bem simples, quando eu digo que é simpático apenas quero dizer que ele simplesmente é legal.

Ribon no Kishi é um mangá divertido, tudo que ocorre nele é assim. É uma leitura calma, divertida, com algumas lições de moral, é literalmente um mangá para qualquer pessoa, seja ela iniciante em Tezuka (como eu) ou em mangás no geral. É um mangá bem simples de ser entendido e ao mesmo tempo bem divertido.

O elenco da história é na minha opinião bem cheio de carisma e de uma personalidade única na série.

É o personagem que mais me fez rir durante a série inteira, certeza

Temos uma pessoa que podemos chamar de “hermafrodita”, um jovem rico complemente apaixonado, um pirata com um amor impossível, e de quebra, um shotacon super engraçado, tudo isso coloca de uma forma divertida, deixando o mangá ainda mais divertido do que ele já é.

O traço, bem digamos… pelo menos me lembrou HQs americanas, já que na época ele ainda não tinha um traço único, acho. O mangá não só criou um demográfico novo mas também começou a história de todos os traps (uma pessoa com aparência de homem mas que na verdade é uma mulher, e vice-versa) já que a protagonista da história, digamos, é um trap, né.

Vou falar agora da parte da edição da JBC. Eu realmente não tenho mais nada a falar do mangá, sério, eu até brinquei no Twitter que isso aqui deveria ser sobre o filme de Metrópolis. A edição da JBC está boa, a tradução está boa, pelo menos de minha parte consegui entender tudo. O temor de todas as pessoas, pelo menos comigo, não aconteceu, as temidas páginas caindo não caíram, e nem ameaçou descolar, e eu abri até que bastante hein.

Para quem não tem grandes exigências e não liga para o fato de ser meio-tanko, o mangá pode ser facilmente comprado por valores baixos em eventos da Comix, para quem quiser uma edição caprichada recomendo a da editora Vertical que apesar de eu não tê-la dizem ser ótima, podem comprá-la clicando aqui.

Agora falarei do Teatro de Takarazuka.

Você provavelmente deve ter estudado em história sobre os grandes teatros gregos, que tinham apenas homens no elenco, pois é, o Teatro de Takarazuka é o oposto do mesmo, apenas tem mulheres em seu elenco.

Fundado em 1913, como escola de música, na cidade de Takarazuka, a companhia foi o primeiro teatro de revista do Japão, e, mais importante do que isso, foi a primeira companhia de teatro formada somente por mulheres, assim como o tradicional Teatro Kabuki é formado unicamente por homens. As jovens candidatas passam por uma seleção muito rígida e disputada, anos de disciplina, treinamento e aperfeiçoamento, para representarem no palco com maestria os seus papéis, seja como homens, seja como mulheres. A retribuição? Fãs extremadas que acompanham avidamente as apresentações e são apaixonadas pelas atrizes.

Mas nem sempre foi assim, durante a época da fundação do teatro (1914) e o pós-guerra (1946), a companhia contratou homens para performances e os treinava separadamente das mulheres. No entanto, as atrizes eram contra a idéia de fazer par com homens na companhia. Assim, o grupo masculino foi dissolvido brevemente nas duas tentativas (1954 foi o último ano). Recentemente, um musical japonês chamado Takarazuka Boys foi lançado, baseando-se nesta parte da história do teatro.

No Takarazuka as atrizes são encaminhadas, ainda durante o seu aprendizado, para assumirem papéis masculinos ou femininos. As atrizes que representam mulheres são as musumeyaku (musume quer dizer filha, yaku é sombra), as que representam homens são as otokoyaku (otoko é homem em japonês). Assim como no Kabuki os onagata (atores que representam os papéis femininos) devem viver 24 horas como mulheres, as otokoyaku, devem ser homens. Entende-se homem a representação de gênero – que alguns autores consideram andrógina – criada para o espetáculo. Tanto as musumeyaku quanto as otokoyaku são treinadas para representar a feminilidade ou a masculinidade de acordo com as exigências do Takarazuka. Normalmente, as otokoyaku, que são muito parecidas com alguns bishonens dos shoujo mangá (ou seriam os bishonens parecidos com elas?), têm muito mais fãs que as musumeyaku e recebem até propostas amorosas.

O papel de otokoyaku (masculino) em geral é o que atrai mais atenção, e são estas as atrizes que recebem mais cartas das fãs (quase todas são fãs mulheres). Para aprender a ser “homem”, a aspirante passará por muitas classes estudando postura, voz, trejeitos masculinos, enquanto que as candidatas a musumeyaku se dedicam a aprenderem a ser “mulheres”. Não “mulheres” genericamente, mas mulheres que se adaptam aos papéis que têm que representar nas peças. Em geral, são mulheres mais que mulheres, quase uma caricatura de feminilidade.

Mas toda a beleza desde teatro não se resume apenas ao público japonês, já que em 1938, realizou seus primeiros espetáculos no exterior, mostrando ao público Europeu esta nova invenção japonesa. Em 1940, a trupe mudou seu nome para Companhia de Teatro Takarazuka e foi dividida em quatro trupes: Flor, Neve, Lua e Estrela, fora a trupe especial que se apresenta principalmente em Osaka, no Grande Teatro Takarazuka. Além desse teatro, a companhia também possui outro em Tóquio.

O Takarazuka apresenta toda a sorte de espetáculos, encenando desde musicais da Broadway como “West Side Story” (Amor, Sublime Amor), até versões musicais de “E o Vento levou”. Mas parte considerável da fama do Takarazuka vem da encenação de peças baseadas em animes. A Rosa de Versalhes se tornou musical já em 1974, logo depois do término do mangá e bem antes do anime. A peça, aliás, sofreu modificações, mas nunca deixou de ser encenada nesses 30 anos. Outros mangás também se tornaram peças do Takarazuka, como por exemplo Asaki Yumemishi, a versão em quadrinhos da História de Genji feita por Waki Yamato.

Em 1998, uma quinta trupe, a Cosmos, foi criada e em 2003 se comemorou o aniversário de 90 anos com muita festa. Quando se aposentam, algumas atrizes do Takarazuka formam outras trupes paralelas, ou seguem carreiras como atrizes ou cantoras. Fora isso, existem hoje companhias que também apresentam espetáculos semelhantes, sem contudo conseguir o sucesso e o respeito que o Takarazuka inspira. Para maiores informações sugiro a página do Takarazuka e a Belladona que é cheia de imagens dos espetáculos e atrizes.

Mas a maior inspiração que partiu do teatro é com certeza Osamu Tezuka, o grande deus do mangá, se mudou para Takarazuka, e lá acabou assistindo muitas peças deste teatro, e nisso criou o mangá deste review, Ribbon no Kishi, sobre grande influência do que viu no teatro. O Gênero Shoujo nascia ali, sobre muito inspirado pelo teatro, pronto para definir diversos temas que foram usados no gênero ao longo do tempo.

Sobre as trupes do teatro:

As cinco trupes do Takarazuka Revue têm certas diferenças de estilo e material que fazem cada uma ser únicas.

Hanagumi (Trupe “Flor”)

A Hana é considerada a trupe que produz as melhores otokoyaku. Em 2003, três das cinco otokoyaku top stars (as principais atrizes de cada trupe) eram do Hanagumi: Haruno Sumire, Hanagumi; Asami Hikaru, Yukigumi; e Shibuki Jun, Tsukigumi. Suas performances costumam ter altos orçamentos, com cenários e figurinos chamativos, e muitas vezes derivados de produções líricas.

Tsukigumi (Trupe “Lua”)

É famosa por lançar tops jovens (como Amami Yūki, que ainda não tinha chegado ao seu sétimo ano quando se tornou top), as atrizes dessa trupe são boas cantoras. A expressão “Departamento de Pesquisa Musical” é ocasionalmente usada em artigos sobre a trupe, focando a atenção especial do grupo para a música. Suas performances tendem a serem dramas e musicais modernos.

Yukigumi (Trupe “Neve”)

É trupe mais “conservadora” da companhia. Sempre tendeu aos dramas tradicionais japoneses enquanto as outras trupes mantinham um estilo ocidental. No entanto, foi a primeira a performatizar Elisabeth no Japão. Atualmente, a trupe está mudando o seu estilo para algo mais parecido com as demais trupes.

Hoshigumi (Trupe “Estrela”)

Junto com o Hanagumi, é a trupe que geralmente fornece as top stars para o teatro.

Soragumi (Trupe “Céu”)

Sora, a mais nova trupe no teatro, não carrega o peso da tradição, e por isso costuma ser mais experimental. Quando foi formada, adotou talentos de todos os outros grupos. O estilo da trupe foi influenciado pelas atrizes Shizuki Asato, a primeira top do Soragumi; e por Yōka Wao e Hanafusa Mari, o “Casal de Ouro”, que encabeçaram o grupo durante seis anos. Foi a primeira trupe a apresentar Phantom (baseado no musical O Fantasma da Ópera) e a ter um compositor da Broadway (Frank Wildhorn) a compor suas partituras. Além disso, uma característica física notável no Soragumi é que a maioria das otokoyaku mede mais de 1,70m – sendo a mais notável Yuumi Hiro, a mais alta de toda a companhia desde que entrou, em 1997, com 1,79m.

Num país em que as mulheres têm tantos afazeres domésticos e vivem em função da família por tantos anos, enquanto as maiorias dos empregos fora de casa são ainda quase que totalmente ocupados por homens, o Teatro de Takarazuka talvez funcione como uma ilusão necessária. Talvez, tal como os espectadores do Noh fazem com os atores homens, elas jamais esqueçam que as pessoas que estão representando aqueles diversos papéis são todas mulheres. Também funciona como uma projeção dos desejos que todas elas têm, de um dia poderem todas participar em nível de igualdade com os homens, de serem capazes de serem “homens”, ou “mulheres”. Mas talvez, ainda mais interessante, seria se as mulheres japonesas entendessem a questão do gênero num nível muito mais sofisticado, ao reconhecerem que os papéis que nos são dados representar na vida é mais uma questão de cultura do que de biologia.

É isso, espero que tenham gostado de tudo, e não deixem de comentar e ler os outros reviews do #TezukaDay em, basta dar um click aqui, ou ler diretamente por aqui:

– JBOX – Mangrafia
– 
Nahel Argama – Osamu Tezuka, O Pai do Anime // O Star System de Osamu Tezuka
– Maximum Cosmo – Tezuka, para todas as idades
– Otakismo – Influencia do pop americano-na-obra de Osamu Tezuka
– Troca Equivalente – Influência da Grande Guerra nas obras de Tezuka
– 
Mangatologia –  Table of Cast! – Tezuka Por Outros Autores 
– Folha Nerd – Parceria Tezuka x Maurício de Sousa
– Mundo do Coringa – Biografia
– Visual Novel Brasil – JonhMaster – Influência no mercado
– Mais de Oito mil – Don Dracula

– Special Days – Black Jack
– Maximum Cosmo – Kimba, o Leão Branco
– Chuva de Nanquim – Pluto

– Blog do Graveheart – Buddha
– Mangás Undergrounds – Ode no Kirihito
– Gyabbo! – Apollo’s Song
– Elfen Lied – Barbara
– Subete Animes – Astro Boy, o estudo de um fóssil
– Anikenkai – Phoenix 2772
– Mangás Cult – Tetsu no Senritsu
– Radix – Dororo
– 
Netoin! – Fushigi na Merumo– Otame – A Princesa e o Cavaleiro
– Across The Starlight – Metrópolis
– 
Moon Stitch – Angel’s Hill
– 
OtakuYousai – Ma-chan no Nikkichou
– Virtual Meinsanity – MW
– Visual Novel Brasil – Fuusuke 

Texto: @eduardoketsura_
Revisão: @TrucyX
Fontes para o texto: WikipediaShoujo House e Espaço Academico.
Junção dos textos e Adaptação: @eduardoketsura_

Para fechar, porque não a principal?

4 comentários em “Ribon no Kishi e o Teatro de Takarazuka – Um mangá bem simpático com uma grande inspiração teatral

  1. passando pra dizer que… EU LI. =)

  2. Li tudo também. Acho o mangá da Princesa e o Cavaleiro bem ok, nada demais. No entanto, gostei de saber que Tezuka teve inspiração do teatro Takarazuka para criar a obra. Obrigada pelas informações! =]

  3. Me senti enganado Eduardo… eu esperava ler um texto mais detalhado, falando da história, como ela é contada, dos personagens, do que você tirou dela, imagens… tudo isso para decidir se compro, mas acabei recebendo de brinde um texto sobre teatro. Trololo.

  4. […] no ano de 2012, Kimba: o leão branco. Continuando nos clássicos, podemos ir para o bom texto do Planeta do Moe sobre aquele que é uma das bases do shoujo manga e que já foi publicado aqui no Brasil, Ribon no […]

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